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Secretário de Covas era funcionário fantasma na Sabesp
Sérgio Barbour, contratado pela Comgás, foi cedido à Sabesp; funcionários dizem que ele nunca trabalhou

GEORGE ALONSO
Da Reportagem Local

O secretário de Esportes e Turismo do governo Mário Covas (PSDB), Sérgio Barbour, 52, foi "funcionário fantasma" da Sabesp (Companhia de Saneamento Básico de São Paulo) na gestão do governador Luiz Antonio Fleury Filho (PMDB).

O atual secretário era funcionário da Comgás desde 12 de maio de 1988, embora nunca tenha prestado serviços àquela empresa.

Em entrevista à Folha, Barbour disse que trabalhou na Sabesp, como comissionado (emprestado pela Comgás), de 1992 a 1994. Mas vários funcionários da empresa nunca ouviram falar de seu nome.

O governador Covas já decidiu que devem ser demitidos todos os funcionários "fantasmas" e os chamados "fantasmas estáveis" –aquele comissionado que nunca trabalhou na empresa que o contratou (leia texto ao lado).

"Fiquei lá na Sabesp de 1992 até o final da administração, em 1994, na assessoria da presidência. Dava assessoria", afirmou, na última segunda-feira o secretário.

Nesta semana, a Folha procurou a Sabesp para confirmar a informação. A empresa informou os nomes dos quatro assessores executivos do ex-presidente Luiz Appolonio Neto: Emílio Barroso Jr., Leopoldo Macedo Neto, Maria Guiomar Sala e Walter Sigolo.

O cadastro de empregados da Comgás, referente a junho passado, coloca Barbour como funcionário "ativo" da empresa. Não aparece como comissionado na Sabesp –o que contraria a informação dada pelo atual secretário.

Marli Anazário, uma das duas secretárias da presidência da estatal há sete anos, nunca o viu. "Não conheço nenhum Sérgio Barbour. Conheço só o secretário, pelos jornais. Ele não era funcionário. Nunca trabalhou aqui", disse ela, ao ser indagada pela Folha.

"Não conheço nenhum Sérgio Barbour na Sabesp. Assessor? Nunca ouvi esse nome falar na Sabesp", disse Yone Pires Ferreira, secretária da diretoria de Operação Metropolitana. Ela é empregada da empresa há 19 anos.

A Folha decidiu procurar então, ex-diretores da empresa. O ex-diretor de Meio Ambiente José Fernando Bruno disse que "desde outubro de 1993" (quando foi criado sua diretoria) não soube da presença de Barbour na empresa.
"Na área da presidência, eu saberia, os diretores estavam ali. Nessa área, ele não trabalhava", disse Bruno.

Roberto Valente, ex-diretor comercial, foi direto: "Sérgio o quê? Vamos falar francamente. Realmente, não sei quem que é".

Já João Alberto Viol, ex-diretor de Engenharia, afirmou que Barbour esteve na empresa, mas de forma relâmpago. "Eu acho que passou por lá, no final do 1992 ou início de 1993. Mas ficou muito pouco tempo. Recentemente, em 1994, não trabalhava".

Barbour afirmou que nunca falou com diretores e que só teve contato direto com o então presidente Luiz Appolonio Neto ("é meu amigo"). Antes de presidir a Sabesp, Appolonio chefiou a Comgás (de 1991 a abril de 1993).

Appolonio fui procurado durante toda a semana em sua casa e no escritório. À Folha foi dito sempre que ele estava viajando.

Barbour disse também que nunca assinou documentos na Sabesp porque era "assessor especial". "Só tratava de interesses da presidência", afirmou.
Na Comgás, Barbour nunca prestou serviços. "Sempre fui chamado para outros órgãos", alegou. Ele descreveu vários comissionamentos.


'Eu não era assessor de aparecer, pô!'

Da Reportagem Local

Em entrevista à Folha, ontem à tarde, o secretário de Esportes e Turismo de Covas, Sérgio Barbour, afirmou que "não precisava ir necessariamente à Sabesp", onde teria trabalhado, embora fosse funcionário da Comgás.

O secretário não conseguiu explicar, afinal, qual era sua função na empresa: "Dava consultoria de assuntos variados", disse.

Os currículos enviados à Folha pela Secretaria de Esportes e pelo Palácio dos Bandeirantes não citam sua passagem pela Comgás.

Leia a seguir trechos da entrevista com Sérgio Barbour:

Folha - O sr. disse que trabalhou na assessoria da presidência da Sabesp. Tinha uma sala?
Sérgio Barbour - Eu dava assessoria para o presidente.

Folha - Mas havia um lugar específico em que sr. ficava?
Barbour - Na presidência. Eu não ficava... Inclusive, eu tinha uma função... eu não sou um burocrata. A consultoria que eu dava à presidência era de assuntos de natureza a mais variada.
E muitas das atividades que eu desempenhava em atendimento à presidência eram de natureza externa, em contatos. Inclusive, o último projeto em que ele (Luiz Appolonio Neto, ex-presidente da Sabesp) me deu a responsabilidade de encaminhar era a implantação de uma ciclovia na marginal do rio Pinheiros.

Folha - O sr. tinha uma sala específica, uma secretária?
Barbour - Não, não. Eu atendia diretamente ao presidente.

Folha - O sr. entrava em contato com ele constantemente?
Barbour - Permanentemente!

Folha - Na Sabesp, não conhecem o sr.
Barbour - A assessoria que eu dava era diretamente a ele.

Folha - O sr. trabalhou na Sabesp entre 1992 e 1994?
Barbour - Não me lembro o mês exato. Foi de 1992 até 31 de dezembro do ao passado.

Folha - Mas muitas pessoas que trabalharam na empresa não o conhecem.
Barbour - Mas o presidente me conhece. Pergunta para ele (Appolonio Neto, que também foi presidente da Comgás, empresa que contratou Barbour em 1988).

Folha - O sr. falava com algum outro diretor lá?
Barbour - Veja bem, não sou um burocrata. Fui secretário municipal (de Esportes, governo Olavo Setúbal, de 1977/79), fui secretário de Estado (de Turismo, no governo Franco Montoro, 1985/87). Então é diferente o tratamento, e o tipo de serviço que eu posso prestar do que uma pessoa que vai lá para dar um expediente comum.

Folha - Então o sr. não ficava na empresa?
Barbour - Não necessariamente. Eu podia até ir à empresa, mas não ficava necessariamente. Tratava de projetos e assuntos de interesse da presidência...

Folha - Em algum trabalho, o sr. chegou a conversar com algum diretor da Sabesp?
Barbour - Não. Atendia só o presidente.

Folha - Existe algum trabalho protocolado do senhor?
Barbour - Não. Porque eu não era assessor de aparecer, pô! Eu acompanhava assuntos de interesse da presidência. Eu era um assessor especial. Não sou um assessor comum como outros.

Folha - Qual era o salário?
Barbour - Era de R$ 1.500. Uma fortuna, né, sou privilegiado.

Folha - Quer dizer que em termos de projetos não nada assinado pelo sr. nesses dois anos?
Barbour - Eu não assinava documentos.

Folha - Tenho documento da Comgás em que sr. aparece, em junho de 1994, como ativo e não como comissionado...
Barbour - Incrível.

Folha - E sr. falou que trabalhou comissionado até 31 de dezembro na Sabesp...
Barbour - Estranho. Não estou sabendo. Meu comissionamento foi até 31 de dezembro e era para ser renovado até 31 de janeiro.

Folha - Eu também achei estranho.
Barbour - Mas não tem estranho, meu irmão (risos).

Folha - O sr. era "fantasma"?
Barbour - Mas que "fantasma"? Você acha que por R$ 1.500 eu seria "fantasma". O que você devia me perguntar é como alguém que foi secretário tantas vezes, com tantas funções públicas, depois de mais de 20 anos de serviço, depende de R$ 1.500.

Folha - Agora, na Comgás, o sr. nunca trabalhou mesmo?
Barbour - Porque eu sempre fui requisitado. Quando fui contratado pela Comgás, logo em seguida, fui candidato a vereador. Então, tive que me afastar. Num período, fiquei afastado porque fui candidato, e outro fiquei dando assessoria ao Caio Pompeu de Toledo no Congresso. Depois, fui para a Assembléia Legislativa, na liderança do PSDB, com Roberto Engler.

Folha - O sr. ficou na Assembléia até ir para a Sabesp...
Barbour - Quando o Appolonio foi para a Sabesp... inclusive... o Appolonio é meu amigo de muitos anos. Ele me pediu para ir com ele.

Folha - O sr. não acha ruim ser contratado, ser pago e não trabalhar?
Barbour - O problema não é ruim. É questão de critério. O Covas acha que não deve ser assim, e, por isso, não vai ser. Se fosse nessa administração, eu deveria estar na Comgás. Acontece que, naquela época, não havia essa exigência. Hoje, existe. Eu acho correto.

Folha - Mas se o sr. acha que é incorreto, por que aceitou?
Barbour - O problema aí não é ético. É administrativo.

Folha - O sr. nunca chegou a ir ao seu local de trabalho na Comgás?
Barbour - Trabalhar, atuar na Comgás, não.