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Velada de armas

Por Eduardo Lourenço


A nossa Democracia atravessa uma das suas crónicas dificuldades, nem pior nem mais funda do que outras já passadas

Em véspera da batalha de Actium, que iria decidir o destino do mundo antigo, os soldados de António julgaram ouvir o rumor dos seus deuses que se mudavam para o campo de Octávio, futuro Augusto. As nossas próximas eleições não abalarão a ordem do mundo. Nem mesmo a da Península. E muito menos a da Europa. Para esta, as alemãs importam-lhe mais. Mas para nós, verdadeiramente, só as nossas nos importam. E com razão. Talvez mais do que neste momento supomos. Todavia, não o suficiente para as imaginar nos termos "apocalípticos" que uma parte da oposição ao actual Governo tem evocado.

Como se o país, além dos efeitos de uma crise internacional sem precedentes e ainda em curso, estivesse à beira de um sismo institucional. Mesmo de um novo PREC, como escreve o mais pertinente e militante oposicional dos nossos cronistas políticos.

Ora pouca gente como Vasco Pulido Valente, historiador do nosso Liberalismo, sabe que não está. A não ser que se trate de um PREC às avessas. A nossa Democracia atravessa uma das suas crónicas dificuldades, nem pior nem mais funda do que outras já passadas. Nem sequer a perspectiva ou a possibilidade de uma alternância ao actual Governo seria uma tragédia, mas um episódio normal num sistema democrático estável como o nosso. Se isso significasse também, e realisticamente, uma autêntica crise política, a Constituição põe à disposição do Presidente da República os instrumentos para a resolver sem dramas.

Dito isto, seria excesso de optimismo e irresponsabilidade política não tomar mais a sério do que tem sido o caso entre nós, excepto nas primeiras eleições para a Assembleia Constituinte, este acto eleitoral. Sobretudo para quem se situa à esquerda no tabuleiro político, mas também por ser um governo de esquerda o "challenger" destas eleições e pelo clima mediaticamente deletério da actual campanha.

Não há bem-vinda graçatelevisiva de última hora que possa fazer esquecer a atmosfera carregada e a tonalidade agressiva (de incontidos reflexos de ódio verbal) que muitos dos confrontos eleitorais trouxeram à tona dos nossos suaves costumes. Como se as insinuações e os insultos pessoalizados se tivessem, de súbito, tornado moeda corrente. Saudades dos tempos arruaceiros e bem pouco democráticos de má e oposta memória?

Não tenhamos ilusões. A descontracção democrática e "bon enfant" que o exemplo de Mário Soares imprimiu à nossa Democracia restaurada desapareceu de todo desta singular campanha. As culpas serão de todos os nossos actores políticos, habituados a viver essas entorses ao "fair-play" democrático como uma espécie de jogo codificado. Há pouca novidade nisso. O que mudou e alterou tudo foi a amplitude da implicação e intervenção diurna e nocturna da potência mediática (verdadeira e quase única instância do poder sem mais representatividade política que a das suas numerosas cabeças de moderna hidra de Lerna). Ao lado dela, mas embebida nela, a "nova opinião" mediática anónima, paradoxal mistura de total liberdade e total irresponsabilização das suas mensagens assassinas, por vezes geniais, mas sem resposta por parte dos actores políticos por elas massacrados. São os "snipers" da nova versão hiperdemocrática dos meios de comunicação. A quem eles beneficiam, neste combate duvidoso para condicionar a opinião pública, a simples e desprevenida leitura desses "snipers" amorosamente seleccionados pelo jornalismo oficial ou oficioso, o mostra de sobra.

Como se isso não bastasse, assistimos em directo - e isso, sim, foi inédito nesta campanha - à intervenção pessoalizada da instância empresarial no campo - até agora preservado - da esfera e da ordem política, que rege e define o nosso estatuto democrático. Isto deixará rastos. Esperamos que não sejam os da nostalgia restauracionista. Para nosso sossego a Igreja mostrou-se, nas actuais circunstâncias, bem mais discreta.

Há século e meio, o inesquecível Júlio Dinis deixou-nos o primeiro e, até hoje, mais verídico retrato da nova religião eleitoral trazido pelo Liberalismo.

Parece que estamos a anos-luz dessa caricatura da democracia num país então quase só rural e ingénuo, de caciques grotescos e analfabetos, conduzindo os eleitores ao voto como o rebanho ao matadouro. Agora vamos votar sobre-informados, mais ou menos convencidos de que a moderna cidadania e o seu futuro são da nossa inteira responsabilidade. Tal é a essência da utopia democrática voluntariamente assumida. Mas mais funda e imperativa que essa convicção é a "natureza das coisas".

No essencial, o nosso Portugal à hora americana por fora, como quase toda a Europa, não está tão longe do Portugal do Júlio Dinis como supomos. As forças ou as crenças mais ou menos obscuras que dispunham das vontades ao serviço do ignaro Joãozinho das Perdizes foram substituídas apenas, com mais eficácia, por mecanismos de sedução irresistível, hipnótica mesmo, ao serviço de poderes nada obscuros. Não se trata da famigerada força ao serviço de deuses benévolos, mas de autênticas realidades demoníacas, senhoras ao mesmo tempo do poder económico, financeiro, político, tecnológico e, sobretudo, mediático, em estado de "gangsterização" planetária.

Se Deus está morto, eles estão vivíssimos. Não são eles que votam por nós. Somos nós que votamos por eles e abdicamos da vontade de lhes resistir.

Há quase dois séculos, no momento mesmo em que o novo Leviatã tomou forma e figura impondo a sua regra de Deus ao mundo, surgiu no Ocidente a que ainda pertencemos a vontade e a tentação de o humanizar. Chamou-se a essa ideologia, assumida na ordem política e social, Socialismo. Dois séculos de combate ainda não findos e alguns perdidos repetidamente suscitam, neste momento, algum sarcasmo e uma boa dose de ironia da parte dos senhores deste mundo. O estado do mundo não justifica este triunfalismo dos "supôts" de Leviatã. E ainda menos, a nossa genuflexão diante da máquina de desumanizar a humanidade e a própria natureza de que esses mestres de História são responsáveis. Também isso se julgará na peripécia eleitoral de depois de amanhã. E para muito tempo.

Ensaísta