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Olhos da África
Rodrigo Cavalheiro investe dinheiro de prêmio para percorrer a
África de carona, ônibus e táxi e montar uma grande reportagem sobre o continente
No último dia 4 de abril, o gaúcho
Rodrigo Cavalheiro, pediu
demissão do portal do jornal El
País, em Madri, onde trabalhava
desde janeiro, no dia 5 comprou
umas botas, no dia 6 disse adeus
à namorada, no dia 7 comprou uma
mochila e um laptop pequeno e no
dia 8 deixou a cidade de carona
rumo a uma aventura que tem todos
os ingredientes para se tornar
memorável: está percorrendo a
África de Norte a Sul, por terra (de
carona, ônibus e táxi), com a intenção
de montar uma grande reportagem
sobre o continente que pela
primeira vez vai sediar um Mundial
de futebol. Como ex-funcionário
da Zero Hora, conseguiu que eles
publicassem suas matérias em um
blog (www.zerohora.com.br/africa)
Jornalistas&Cia – Conte resumidamente
detalhes da viagem em
si: os motivos, como foi o planejamento,
se tem roteiro definido,
como enfrenta as dificuldades de
infraestrutura...
Rodrigo Cavalheiro – Estava cansado
de não sair da redação e pagavam
pouco para o custo de vida
europeu. Queria voltar para o Brasil,
mas as sondagens que tinha
não se confirmaram por causa da
crise. Comentei com uns amigos
espanhóis que era o momento de
fazer uma grande história na África.
Um deles me disse que conhecia
gente que ia de carro até Gana
em uma semana. Nada de grandes
planos, decidi tudo rapidamente.
Minha idéia é ir do Marrocos à
África do Sul por terra. São uns 14
mil km e meu orçamento é de sete
mil euros. Até Gana segui o roteiro
preestabelecido pelo pessoal
que me deu carona. Agora seguirei
pela costa oeste da África. Não
tenho roteiro exatamente, mas
na esperança de que essa visibilidade
o ajude a arranjar patrocínio,
já que faz a viagem por conta própria
– investiu nela o que ganhou
com o Prêmio Rey de España
2008, por uma série de reportagens
que fez com o argentino Javier
Drovetto sobre corrupção de
policiais rodoviários na Argentina
contra caminhoneiros e motoristas
que iam a turismo a Buenos Aires,
publicada simultaneamente em
Zero Hora e no argentino Clarín,
em abril de 2007. “Acho que será
um bom trabalho jornalístico, principalmente
na categoria reportagem,
e tem uma boa dose de ousadia.
São mais de 14 mil km de
boas histórias por deserto, selva e
savana, do Marrocos à África do
Sul”, diz Rodrigo. Apesar do prêmio
que financia a viagem ter sido ganho
com uma reportagem investigativa,
essa não é a especialidade
dele: antes de sair do Brasil trabalhou
sempre em Zero Hora, onde
começou em 2001 na Geral, editoria
em que esteve até 2007; em
2004, ficou seis meses na Espanha,
com uma bolsa do Programa
Balboa, e passou pela Internacional
de El Pais. “Voltei para a Geral
da Zero e nunca me especializei
em matérias investigativas, ainda
que tenha feito algumas. Era mais
o repórter que joga em todas. Em
2007, fui para Internacional e logo
passei também a editar o Caderno
Ambiente, um suplemento
mensal. Nesse mesmo ano fiz a
matéria na Argentina. Por coincidência,
também no ano passado a
Fundação Carolina me deu uma
bolsa para fazer o Master de Jornalismo
do El Pais. Terminei no final
de 2008 e fiquei trabalhando
no elpais.com. Estava pensando
em voltar para o Brasil, mas como
a crise fechou o mercado decidi
apostar o dinheiro do prêmio nessa
idéia, esperando encontrar um
patrocínio com o projeto já em andamento.
Deixei Madri de carona
com uns espanhóis que me trouxeram
até Gana, passando por
Marrocos, Mauritânia, Senegal,
Mali e Burkina. Agora estou viajando
sozinho. Já passei por Togo e
Benin e quando vocês publicarem
essa matéria provavelmente vou
estar na Nigéria”. A seguir, a íntegra
da entrevista que Rodrigo
(bage10@hotmail.com) deu a
J&Cia por e-mail:
passarei por Nigéria, Camarões,
Congo, República do Congo, Angola,
Namíbia e África do Sul. Minha
única regra é não voar e gastar
o mínimo em hotéis e comida.
Para o viajante com dinheiro, a África
tem estrutura e não há grande
diferença com relação a viajar na
América Latina. Há hotéis de luxo,
boa comida... Agora, para quem
viaja de mochila a coisa é complicada,
principalmente o transporte.
Eu, por exemplo, já peguei um atraso
de três horas no ônibus de Gana
a Togo. Se não quiser esperar o
ônibus a alternativa são os táxis
que ligam as cidades, mas que vão
superlotados. Ontem, em Benin,
peguei uma Belina com 13 pessoas,
dez adultos e três crianças.
Dentro das cidades o mais rápido
e pegar um mototaxi, com motoristas
bem mais selvagens do que
os motoqueiros de São Paulo. Mas
disso não me queixo, se quisesse
conforto estaria na Europa, onde
falta notícia. No final, tudo isso faz
parte da diversão. Tenho internet
em todas as capitais, mas normalmente
a conexão é bem ruim. Pra
escrever este e-mail demorei duas
horas (hehehe).
J&Cia – Teve algum problema com
a língua?
Rodrigo -– Não falo francês, o que
é uma limitação, mas quase sempre
encontro alguém que fala inglês
ou espanhol. Todos falam alguma
língua europeia, então não
preciso aprender nenhum dialeto.
J&Cia – E as diferenças culturais?
Rodrigo – Elas foram maiores no
início, nos países muçulmanos
mais fechados, como a Mauritânia.
Mas não houve nenhum problema.
Senegal e Gana são bem parecidos
ao Norte do Brasil, com zonas
bem urbanizadas e outras muito
pobres. A principal diferença na
prática é como todos esses países
veem a fotografia. Muitos protestam
mesmo estando em uma
multidão, pois pensam que foi feita
uma foto só deles. Outros pedem
dinheiro, mas ai e só apagar
a foto e se mandar.
J&Cia – Você precisou adotar alguma
medida especial com relação
à segurança?
Rodrigo – Até agora nenhuma precaução
diferente das que temos no
Brasil: evitar caminhar sozinho de
noite, não andar com muito dinheiro
e ter cuidado com os batedores
de carteira. O meu problema principal
será no centro da África. Viajo
com câmera e computador e
Nigéria e Congo são países muito
mais perigosos e corruptos que o
Brasil. Com estes estou bastante
preocupado. Minha principal dificuldade
é que, embora seja moreno,
desperto muita atenção por
não ser negro. Me acostumei a trabalhar
observando, em silêncio,
mas aqui é complicado fazer parte
do ambiente. A favor tenho a nacionalidade.
Ser brasileiro até agora
me ajuda a entrar nas conversas,
descobrir como é a vida real por
aqui.
J&Cia – Isso pelo lado prático. Mas
e a filosofia, a poesia do trabalho?
Está fazendo o que gostaria de ler
e não encontrava nos veículos?
Consegue pôr toda a alma de repórter
nesse trabalho? Quais as
recompensas materiais e espirituais
de uma obra solitária, a esperança
no Jornalismo...?
Rodrigo – Não tinha pensado nisso
a partir desse ponto de vista...
Estou fazendo, sim, o que gostaria
de ler. Mas isso tentava fazer
mesmo com matérias chatas sobre
o trânsito de Porto Alegre. A
grande diferença é que durante
esses três meses vou ser realmente
repórter 24 horas por dia, por
questão de sobrevivência. Fala-se
muito nisso das 24 horas, mas
todo mundo se desconecta em
algum momento, com a família, o
futebol etc. Aqui tenho que estar
alerta todo o tempo. Claro que estou
fazendo isso porque gosto de
ler e fazer reportagens, mas não
considero que uma iniciativa isolada
devolva a esperança ao Jornalismo.
Acho que até pode estimular
alguém mais a chutar o balde.
Como fenômeno, acredito que o
futuro do Jornalismo depende dos
diretores, mas acho que a maioria
sabe que o papel só vai ter sentido
se vier com reportagens. Recompensas
materiais não existem
ate agora (hehehe). Tentei vender
o projeto a algumas empresas na
Espanha quando ainda estava no
El Pais, mas sozinho é muito difícil
encontrar uma empresa e dentro
dessa empresa a pessoa que decide
rapidamente investir em algo
assim, mesmo com a visibilidade
que a África vai despertar até o ano
que vem. Decidi que ia fazer a viagem
de qualquer jeito e separei
sete mil euros que tinha. Ofereci
para Zero Hora a ideia de publicar
as matérias e notas no site no jornal.
Eles ganhariam um material
exclusivo e eu, alguma visibilidade
para encontrar patrocínio. Tenho
publicado algumas matérias aos
domingos na Zero Hora, e por estas
estou sendo pago. Já as recompensas
espirituais são enormes.
Não tinha visto gente tão amistosa
como as que vi em aldeias de
Burkina Faso, onde se vive como
há alguns séculos. Por natureza e
por profissão sempre fui desconfiado
com relação à natureza do
homem. Mas conhecer essa gente
me devolveu algum otimismo,
são pessoas boas. No interior de
Gana conheci algumas crianças
que não têm outra vida que não
seja de fome e miséria. Para elas
isso e normal, mas tocar o cabelo
de um branco é algo espetacular,
que vão lembrar por dias. É clichê,
mas esse tipo de coisa te faz repensar
prioridades e valores. E repensar
o que seja te faz um melhor
jornalista.
(A foto que ilustra esta entrevista,
feita durante uma tradicional caçada
anual ao antílope, em Winneba,
Gana, foi postada no blog www.
zerohora.com.br/africa no último
dia 16/5)
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